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    Análise

    Em giro latino, Netanyahu se esquiva de política do Brasil

    MONIQUE SOCHACZEWSKI
    GUILHERME CASARÕES
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    16/09/2017 02h00

    Edgard Garrido/Reuters
    O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante entrevista coletiva no México
    O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante entrevista coletiva no México

    O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, realizou visita de uma semana por três países da América Latina: Argentina, Colômbia e México. Na sequência, partiu para a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde encontrará seu "amigo" Donald Trump.

    A turnê é histórica, por se tratar da primeira visita de um primeiro-ministro israelense à região. Há clara motivação econômica: acompanham o premiê 30 empresários interessados em ampliar laços comerciais com países de demanda crescente em setores em que Israel se destaca, como tecnologia e defesa.

    Mas o propósito da viagem é essencialmente político. Bibi, como o premiê é conhecido, passa por uma crise de legitimidade doméstica após denúncias de corrupção e atritos com setores ultraortodoxos. Globalmente, Israel encontra-se isolado diplomaticamente, parte em função da paralisia das negociações de paz com os palestinos. Uma viagem de estadista, portanto, vem em boa hora.

    A visita à Argentina, não por acaso iniciada em 11 de setembro, teve como tônica a questão do terrorismo.

    Dois dos maiores atentados terroristas contra comunidades judaicas ocorreram em Buenos Aires, no início dos anos 1990, contra a embaixada israelense e a Associação Mutual Israelita Argentina. Em encontro com líderes da grande comunidade judaica local, Bibi acusou o Irã e o Hizbullah pelos atentados, reforçando sua retórica de que ambos representam ameaças existenciais a Israel e aos judeus —ontem e hoje.

    Na Colômbia, economia emergente que acaba de sair de dura negociação de paz, Bibi ofereceu ajuda para a reconstrução. Com isso, quer reforçar os laços de cooperação em segurança que marcam a próspera relação de ambos. Eles serão úteis para ambos na tentativa de conter os efeitos da crise venezuelana, sobretudo diante do temor de que Irã e Hizbullah estejam financiando o regime de Nicolás Maduro.

    Ademais, a Colômbia é leal aliado israelense: o país foi o único sul-americano que não votou a favor do reconhecimento palestino na ONU, em 2012, além de ter mantido com Israel boas relações diplomáticas, mesmo quando os demais países criticaram os ataques a Gaza, em 2014.

    Finalmente, a passagem pelo México veio como um duplo pedido de desculpas por Israel, pela visita tardia ao país, considerado uma economia estratégica, e pela declaração de apoio de Bibi ao muro proposto por Donald Trump na fronteira, o que causou enorme ressentimento entre os mexicanos.

    Além da dimensão econômica, há o desejo israelense de romper o isolamento político. Porta para a América Central, o México recebeu positivamente a oferta de Bibi de projetos de desenvolvimento em educação e agricultura em países como Honduras, Guatemala e El Salvador.

    Feito o balanço, uma questão permanece: por que o Brasil não esteve no roteiro do premiê? Segundo a justificativa oficial da Chancelaria israelense, não havia certeza quanto à permanência do presidente Michel Temer quando a turnê foi agendada.

    Ainda que faça sentido, acreditamos haver dois outros elementos nessa equação. O primeiro diz respeito às últimas crises entre Brasil e Israel, que vêm se acumulando desde a aproximação de Luiz Inácio Lula da Silva com o Irã, em 2009, e chegaram ao limite com a tácita recusa brasileira à nomeação de Dani Dayan como embaixador em Brasília, em 2015.

    O segundo se relaciona com as incertezas que circundam as eleições de 2018. Israel tem sido cortejado por ao menos dois presidenciáveis, além de ter enorme apelo entre setores evangélicos. Como o comércio bilateral vai bem e a relação política se acalmou, Bibi foi cauteloso ao não se posicionar no terreno minado da política nacional.

    MONIQUE SOCHACZEWSKI é professora da pós-graduação em ciências militares na Eceme (Rio) e GUILHERME CASARÕES é professor e vice-coordenador da graduação de Administração Pública da FGV-EAESP; ambos são fellows do Schusterman Center for Israel Studies da Brandeis University

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