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    Internet profunda se torna front de organizações terroristas

    15/03/2019 11h56

    Em todas as principais redes sociais há jihadistas. Muitos sem rosto e quase impossíveis de se localizar. Para eles, a rede que interconecta o mundo é um território a explorar como ferramenta de divulgação, captação de recursos e recrutamento de novos terroristas.

    Alguns chegam a cometer atos terroristas sem nunca terem se encontrado com recrutadores ou líderes de células. São orientados a agir como "lobos solitários", modalidade que se torna mais comum por ser quase impossível de ser detectada antes.

    Estado Islâmico na Deep Web

    Há registros também de brasileiros que já se disponibilizaram para realizar ataques. Com a aproximação dos Jogos Olímpicos no Rio, autoridades brasileiras redobraram os cuidados.

    Um caso identificado é o de um jovem que tem um blog amplamente divulgado e se declara disposto a cometer qualquer tipo de atentado no Brasil. Em suas postagens exibe pistolas e fuzis, dizendo que a jihad chegará.

    Em seus contatos com supostos recrutadores terroristas na Europa, a reportagem da Folha criou falsos perfis nas redes com interesses extremistas. Logo após retornar do continente, as solicitações de contato e amizade haviam se multiplicado.

    Passados meses, após aceitar parte desses contatos, o perfil usado no Facebook foi bloqueado. Segundo a administração da rede social, devido a ligações com organizações criminosas.

    As principais redes sociais têm feito uma busca minuciosa de perfis e grupos de jihadistas. O bloqueio teoricamente serviria para dificultar a comunicação entre eles.

    Mas isso não os tem impedido de disseminarem informações e cooptarem adeptos. Recrutados e recrutadores criaram uma forma de se reencontrar após bloqueios.

    Quando um perfil é bloqueado todos os dados e contatos são perdidos. Para minimizar esse problema, os jihadistas usam hashtags padrão em todas as redes para se localizarem. Em sua maioria, são em árabe e inglês, e apenas os recrutados e terroristas têm acesso a elas —a Folha não irá divulgá-las.

    A segurança on-line e a proteção para não detecção têm forçado terroristas e recrutas a usarem diversos programas e dispositivos em computadores e celulares.

    Segundo um universitário brasileiro que manteve contato com jihadistas mas depois se afastou, para a navegação em computadores há uma série de procedimentos como programas para esconderem o IP (o RG do computador on-line) e navegadores anônimos como o Tor, usado para chegar à "deep web", internet profunda.

    Já a comunicação por celular ocorre principalmente pelo aplicativo Telegram, que criptografa a escrita e a torna ilegível para terceiros.

    Os jihadistas utilizam essa ferramenta para disseminar informações. Após retornar da Europa, o repórter, reconhecido como "o brasileiro postulante ao Estado Islâmico", foi incluído em mais de 20 canais no Telegram.

    Alguns trazem notícias do califado e informações sobre o "campo de batalha" na Síria e no Iraque. Outros ensinam técnicas de segurança ou de recrutamento e métodos para cometer atentados.

    Estado Islâmico

    MANUAL DO JIHADISTA

    Entre os materiais para os recém-recrutados, fisicamente ou pela internet, está um manual com cerca de 70 páginas voltado para células terroristas e jihadistas dispostos a realizarem ataques.

    A reportagem da Folha e o universitário brasileiro que manteve contato com supostos terroristas receberam.

    A publicação em árabe, traduzida para o inglês, ensina como planejar, se preparar e realizar um atentado.

    A primeira parte da apostila, de 12 capítulos, ajuda na preparação e orienta ao jihadista redobrar a segurança.

    Há dicas de onde guardar o material, onde morar ("o melhor são prédios e casas similares a outros, para dificultar a localização") e como manter boa relação com vizinhos para não gerar desconfiança. Há sugestões até de como bater na porta.

    O manual também ressalta a importância do dinheiro nas operações e ensina como lidar com ele, como guardar quantias em lugares diferentes para a hora de fuga.

    O autor do manual ressalta que não se deve comprar armas de desconhecidos, e sugere explosivos caseiros porque "a fiscalização em alguns países é rigorosa".

    Aconselha a fugir do estereótipo físico de muitos muçulmanos e a adotar hábitos mais ocidentais: barba aparada, perfume e o aprendizado da cultura cristã.

    Um dos arquivos de instruções está na "deep web". Esse texto afirma que o treinamento militar é uma obrigação para os muçulmanos, e declara que todos têm que estar preparados para a guerra. Para isso, sugere clubes de tiro e treinamento com armas, mas exorta o recruta a omitir sua religião.

    Há uma lista dos melhores tipos de armas para atentados (rifles de assalto) e de vídeos que ensinam a usar o equipamento, caso não seja possível fazer aulas.

    'DEEP WEB'

    Com a fiscalização mais rigorosa na internet conhecida, os terroristas adentraram mais essa zona da internet formada por sites, fóruns e comunidades que não podem ser detectados pelos tradicionais motores de busca, como o Google.

    Para ter acesso a esse conteúdo é necessário usar programas como o navegador Tor, que acessa sites com a terminação.onion. Ali, o monitoramento é mais difícil.

    Além de passar informações e instruções, a internet profunda também serve para arrecadar dinheiro em diferentes partes do mundo.

    As doações, com a venda de petróleo roubado, o dinheiro obtido com sequestros e impostos cobrados no território que domina, são fonte crucial de renda do EI.

    Parte dessa arrecadação vem em bitcoins, moeda virtual obtida na rede por meio do exercício de algumas atividades de processamento. As transferências, que usam criptografia, são difíceis de localizar. Não passam por nenhum banco central nem órgão que registre suas movimentações pelo mundo.

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