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    Lava Jato

    Aécio recebeu propina de Furnas, diz Delcídio em delação

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    DE BRASÍLIA

    15/03/2016 12h36

    Pedro Ladeira/Folhapress
    BRASILIA, DF, BRASIL, 17-12-2015, 12h00: O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (PSDB-MG), durante entrevista exclusiva em seu gabinete no senado federal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) ***ESPECIAL*** ***EXCLUSIVO***
    O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG)

    Em um dos termos de sua delação premiada, o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) afirmou que o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), recebeu propina de Furnas, empresa de economia mista subsidiária da Eletrobras.

    A declaração de Delcídio confirmou depoimento prestado pelo doleiro Alberto Youssef, que também afirmou que Aécio recebia propina de Furnas, mas não houve abertura de inquérito para investigar o caso.

    "Questionado ao depoente quem teria recebido valores de Furnas, o depoente disse que não sabe precisar, mas sabe que Dimas [Toledo, ex-presidente de Furnas] operacionalizava pagamentos e um dos beneficiários dos valores ilícitos sem dúvida foi Aécio Neves", disse Delcídio.

    Ele afirmou ainda que o ex-líder do PP na Câmara José Janene, morto em 2010, também recebia dinheiro de Furnas.

    O senador afirmou que Dimas possui "vínculo muito forte" com Aécio e que sua indicação para o cargo teria partido do tucano, junto ao Partido Progressista, na época da gestão Fernando Henrique Cardoso.

    Delcídio relata um diálogo que teve com o ex-presidente Lula durante uma viagem em 6 de maio de 2005 na qual Lula lhe perguntou quem era Dimas Toledo.

    E, segundo Delcídio, o ex-presidente teria explicado o motivo da pergunta: "Eu assumi e o Janene veio pedir pelo Dimas. Depois veio o Aécio e pediu por ele. Agora o PT, que era contra, está a favor. Pelo jeito ele está roubando muito".

    Para o senador, Lula disse isso porque "seria necessário muito dinheiro para manter três grandes frentes de pagamentos e três partidos importantes".

    Questionado, Delcídio afirma não saber se a irmã de Aécio, Andréa Neves, também estava envolvida em Furnas.

    Disse, porém, que na gestão de Aécio à frente do governo de Minas, a irmã era "uma das grandes mentoras intelectuais dele e estava por trás do governo".

    PARAÍSO FISCAL

    O senador também afirma, em outro trecho de sua delação, que ouviu de Janene que Aécio era "beneficiário de uma fundação sediada em um paraíso fiscal, da qual ele seria dono ou controlador de fato".

    A sede seria, segundo Delcídio, em Liechtenstein, e a operação financeira teria sido estruturada por um doleiro do Rio de Janeiro. A fundação estaria em nome da mãe ou do próprio Aécio.

    Ainda sobre o tucano, Delcídio relatou um caso na CPI dos Correios, que investigou o mensalão, no qual Aécio teria atrasado o envio de dados do Banco Rural para fazer uma "maquiagem" nas informações.

    "A maquiagem consistiria em apagar dados bancários comprometedores que envolviam Aécio Neves, Clésio Andrade, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Marcos Valério e companhia", afirmou.

    Ele contou que o então secretário-geral do PSDB, Eduardo Paes, foi enviado por Aécio para lhe pedir um aumento no prazo para envio das quebras.

    "Ficou sabendo que os dados eram maquiados porque isso lhe fora relatado por Eduardo Paes e o próprio Aécio Neves", disse Delcídio.

    OUTRO LADO

    O senador Aécio Neves (PSDB-MG) publicou nota em que chama de "falsas" e "mentirosas" as citações que Delcídio fez a ele em sua delação premiada.

    No texto, o tucano rebate uma a uma as declarações de Delcídio. Ele diz que o petista lança mão de histórias que "não se sustentam na realidade e se referem apenas a 'ouvir falar ' de terceiros".

    "Delcídio do Amaral se refere a uma fundação que a mãe do senador planejou criar no exterior. Trata-se de assunto requentado já amplamente divulgado nas redes petistas na internet e, inclusive, já investigado e arquivado pela Justiça e pelo Ministério Público Federal há vários anos", diz o senador.

    Aécio usa o mesmo argumento para rebater a acusação de que ele recebeu propina de Furnas, acusação já feita por outro delator da Lava Jato.

    "Delcídio repete o que vem sendo amplamente disseminado há anos pelo PT que tenta criar falsas acusações envolvendo nomes da oposição. É curioso observar a contradição na fala do delator já que ao mesmo tempo em que ele diz que a lista de Furnas é falsa, ele afirma que houve recursos destinados a políticos."

    Por fim, o tucano rechaça a possibilidade de ter tratado com Delcídio sobre assuntos referentes à CPI dos Correios, investigação que desaguou no mensalão. "O senador jamais tratou com o delator Delcídio de nenhum assunto referente à CPMI dos Correios. Também jamais pediu a ninguém que o fizesse", sustenta a nota do tucano.

    Aécio dia ainda que "é fácil demonstrar que o PSDB não atuou na CPMI dos Correios". "Ele diz que foi a Minas tratar com o então governador Aécio de assunto referente à CPMI. É mentira. O relatório final da CPMI data de abril de 2006 e a viagem de Delcídio a Minas ocorreu dois meses depois, no dia 7 de junho de 2006. O que demonstra que ele não poderia ter tratado de assunto da CPMI já encerrada", diz o texto.

    O tucano pretende fazer uma declaração à imprensa ainda nesta tarde para reforçar o desmentido a Delcídio. Aliados de Aécio seguiram a mesma linha da nota ao defendê-lo. O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) afirmou, por exemplo, que poucos assuntos tem tão pouca credibilidade como a "lista de furnas".

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