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    o impeachment

    Collor não teve apoio nem de seu partido em votação do impeachment

    CLÓVIS ROSSI
    COLUNISTA DA FOLHA

    17/04/2016 02h00

    Lula Marques-23.set.1992/Folhapress
    O então presidente Fernando Collor em cerimônia em Brasília
    O então presidente Fernando Collor em cerimônia em Brasília

    Há uma brutal diferença entre a votação na Câmara dos Deputados que afastou Fernando Collor de Mello e a que se dará neste domingo, 17, sobre o destino de Dilma Rousseff: em 1992, 18 dos 28 deputados do partido do então presidente (uma ficção chamada PRN ou Partido da Reconstrução Nacional) votaram pelo impeachment.

    No domingo, salvo uma colossal surpresa, todos os deputados do PT votarão contra o impeachment de Dilma, assim como o fará um aliado fiel como o PC do B.

    O voto dos deputados do PRN era o fiel reflexo da solidão absoluta com que Collor enfrentou o processo de impeachment. Aliás, o fermento que acabou por levar ao processo de impeachment foi outra manifestação de isolamento: a ruína política do governo Collor começou, a rigor, com uma entrevista de seu próprio irmão, Pedro Collor, à revista "Veja", condenando o comportamento e as práticas do presidente.

    Se nem a família estava unida, era inevitável que se chegasse ao dia da votação com a absoluta certeza de que Collor seria condenado. Não havia, então, contagens diárias de votos, como ocorre hoje, pela simples e boa razão de que o governo não dispunha de uma base política –nem mesmo uma base heterogênea como a de Dilma Rousseff e que agora se esfarela.

    Não houve, igualmente, uma única manifestação de rua a favor de Fernando Collor. Ao contrário de Dilma, era um homem da direita que, no entanto, já o havia abandonado pelas evidências de que se tratava de um aventureiro que não conseguia governar.

    Por isso, a esquerda saiu às ruas contra ele, como sai agora a favor de Dilma.

    A única coincidência entre Dilma e Collor está no mercado: quando Collor sofreu o impeachment na Câmara, a Bolsa de Valores de São Paulo, no dia seguinte, subiu imponentes 7% –da mesma forma que tem subido agora, cada vez que o noticiário dá a entender que o impeachment é provável.

    JUNTOS E MISTURADOS

    A festa nas ruas mobilizou 500 mil pessoas, segundo os cálculos das polícias militares dos diferentes Estados. É de se acreditar que se trata de um número que seria desmontado se o Datafolha, naquele momento, já fizesse medições como tem feito nas manifestações de rua mais recentes.

    De todo modo, é também razoável supor que os que ainda não eram chamados de "coxinhas" e "mortadelas" estavam juntos e misturados: basta lembrar que as figuras exponenciais de PSDB e PT, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, estavam então do mesmo lado –claro que depois de uma hesitação inicial de FHC entre apoiar ou não Collor, hesitação logo superada em favor da oposição.

    Todo esse conjunto de fatos tornou a votação de certa forma anticlimática: o plenário, é verdade, festejou o voto de Paulo Romano (PFL-MG), com o qual se atingiu o número então mágico de 336.

    E, de fato, deu-se o que hoje se chama de "efeito manada": depois de Romano, outros 105 deputados disseram "sim" ao impeachment, para se chegar a 441 (contra, foram apenas 38).

    Mais uma diferença pelo menos provável: Collor renunciou ao mandato, antes de ser julgado pelo Senado, ao passo que Dilma insiste, uma e outra vez, que jamais o fará.

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