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    Ministra de Direitos Humanos diz ter título da ONU que não existe

    JOSÉ MARQUES
    DE SÃO PAULO

    16/02/2017 02h00

    TCE-BA
    06/05/2016 - Desembargadora Luislinda Valois, ministra palestra do Café com Prosa em homenagem ao Dia das Mães, organizado pela Asteb em parceria com a Escola de Contas José Borba Pedreira Lapa. Foto: TCE-BA
    Desembargadora aposentada e atual ministra Luislinda Valois (Direitos Humanos), em evento na Bahia

    Ao divulgar a nomeação da desembargadora aposentada Luislinda Valois para o recém-criado Ministério dos Direitos Humanos, o planalto destacou que a biografia dela incluía o "título de embaixadora da paz da ONU em 2012". No entanto, segundo as próprias Nações Unidas, o posto sequer existe.

    A homenagem à ministra foi dada por uma ONG fundada pelo líder religioso coreano Sun Myung Moon, o reverendo Moon (1920-2012), que se autoproclamava "messias" –a informação foi confirmada à Folha pelo ministério.

    Chamada UPF (sigla em inglês para Federação para a Paz Universal), a entidade é uma das mais de 3.000 organizações não governamentais que prestam consultoria para a Ecosoc (braço econômico e social da ONU).

    A ONU reconhece a parceria, mas diz que "nenhuma instituição ou empresa está formal ou legalmente autorizada a representar ou a falar em nome das Nações Unidas, ou de qualquer Departamento do Secretariado da ONU".

    São poucas as personalidades brasileiras que detêm títulos das Nações Unidas. O escritor Paulo Coelho é o único entre os 12 "mensageiros da paz" –grupo que inclui o ator Leonardo DiCaprio e o músico Stevie Wonder.

    Há outros 11 brasileiros que são "embaixadores da boa vontade", como Gilberto Gil, Gisele Bündchen e a jogadora de futebol Marta.

    Já o título recebido por Luislinda também homenageou o ex-candidato a prefeito de São Paulo João Bico (PSDC) e a banda baiana de forró Flor Serena, além de líderes religiosos locais.

    A ONU E A MINISTRA - Luislinda Valois (Direitos Humanos) recebeu título de ONG, e não da ONU

    O reverendo Moon tinha um império financeiro ao redor do mundo. No Brasil, comprou o time de futebol Atlético Sorocaba e manteve uma escola no interior do Mato Grosso do Sul.

    Não é a primeira vez que Luislinda é intitulada "embaixadora da ONU" por um órgão federal. Antes, quando era secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, órgão ligado ao Ministério da Justiça, também havia sido apresentada desta forma em publicações da pasta.

    'NÃO SE REJEITA'

    Em vídeo publicado na internet em 2013, Luislinda conta como foi informada sobre a homenagem: "Eu estava em Sergipe, arrumando algumas coisas com meu filho domingo à tarde, quando eu recebi a ligação perguntando se eu aceitava receber este prêmio. Eu [disse]: 'Não, é brincadeira, não é pra mim'. E aí meu filho, que fala inglês, eu [falo] muito pouco, disse: 'Minha mãe, é que a ONU quer prestar uma homenagem'."

    "Eu disse: 'Bom, uma homenagem não se rejeita'. E aí eles me disseram que eu ia receber um título de embaixadora da paz diante de tantos projetos sociais que tenho desenvolvido Brasil afora e com repercussão no exterior."

    Procurada, a assessoria do Ministério informou que Luislinda foi à Austria em 2012 receber a homenagem da UPF, "uma ONG com status consultivo especial junto ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas".

    "A UPF apoia o trabalho das Nações Unidas, particularmente nas áreas de construção de paz inter-religiosa, educação para a paz e o fortalecimento do casamento e da família", informou.

    O dado sobre o título ser da UPF, e não da ONU, não consta nos informativos divulgados pelo governo. A pasta não disse o motivo de as informações terem sido publicadas desta forma.

    Questionado, o Planalto disse que "divulgou informações com base na biografia da própria ministra". A UPF no Brasil foi procurada, mas não se manifestou.

    PRIMEIRA JUÍZA NEGRA

    Luislinda também era apresentada pelo Planalto como a primeira juíza negra do Brasil, embora o Tribunal de Justiça da Bahia listasse ela como a terceira do Estado.

    A atual ministra começou a magistrar em 1984 e a juíza aposentada Mary de Aguiar Silva, 91, que reivindica o título de primeira, em 1962.

    Ainda foi divulgado que a ministra é a primeira desembargadora negra do país –mas uma magistrada do TJ-MS que se considerava negra foi nomeada ao cargo cinco anos antes, em 2006.

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