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    Índios são atacados no Maranhão; três continuam internados

    CAROLINA LINHARES
    DE BELO HORIZONTE
    THAIS BILENKY
    DE SÃO PAULO

    01/05/2017 15h25 - Atualizado às 21h08

    Reprodução/Cimi
    Indios no Povoado de Bahias, em Viana, no Maranhao
    Índios no Povoado de Bahias, em Viana, no Maranhão

    Um ataque deixou mais de dez indígenas do povo Gamela feridos no Povoado de Bahias, em Viana, no Maranhão. Um deles teve fratura exposta nas mãos devido a golpes de facão e corre o risco de perdê-las, segundo Inaldo Serejo, 43, vítima e membro da Comissão Pastoral da Terra do Maranhão (CPT-MA).

    De acordo com Serejo, a ação ocorreu no domingo (30), por volta das 17h, quando os índios deixavam uma área de 13 hectares retomada por eles no último dia 28. "Avaliamos que não era seguro e começamos a recuar. Ficou apenas um grupo menor, que sofreu o ataque", disse.

    Cinco indígenas, entre eles Serejo, deram entrada no hospital Socorrão 2, em São Luís. Serejo foi ferido na cabeça por um tiro e teve alta. Francisco da Luz, 43, vítima de agressão física, segundo a Secretaria de Saúde do Maranhão, também foi liberado.

    De acordo com a secretaria, os três restantes seguem internados e foram transferidos para o hospital Tarquínio Lopes Filho. Aldeli Ribeiro, 37, teve fratura externa nos antebraços e foi atingido por bala no tórax, quebrando uma costela —os primeiros relatos sobre o caso diziam que ele teve as mãos decepadas, o que foi negado pelo governo. Seu irmão, José Ribeiro, 45, teve trauma craniano por agressão física e José Ribamar, 46, sofreu fratura exposta.

    Os demais feridos tiveram cortes de facão pelo corpo e foram atendidos em Viana e cidades próximas.

    "O grupo estava armado com espingardas e revólveres. Parece que estava tudo já programado para o ataque. A polícia estava lá parece que só esperando uma tragédia. Hoje de manhã o boato na região é de que eles voltariam para invadir uma aldeia que foi construída depois da retomada", disse Serejo.

    O território reivindicado pelo pelo povo Gamela tem um total de 14.500 hectares, de acordo com Serejo, e não foi demarcado pela Funai (Fundação Nacional do Índio). Desde 2014, aguarda-se a constituição de um grupo de trabalho para identificar e demarcar as terras.

    O secretário de Direitos Humanos do Maranhão, Francisco Gonçalves, afirmou que "existe, na região, conflito que envolve questões técnicas e territoriais, que está na Justiça". No ano passado, o governo do Estado solicitou à Funai informações sobre a demarcação.

    ATAQUE ORGANIZADO

    Segundo Serejo, após a retomada do território no dia 28, fazendeiros e pistoleiros da região organizaram uma reunião para expulsar os índios.

    A CPT-MA também denunciou a articulação: "denunciamos, neste contexto, que a ação criminosa e violenta ocorrida neste domingo foi planejada e articulada por fazendeiros e pistoleiros da região, que, através de um texto no Whatsapp, convocavam pessoas para o ataque contra os indígenas".

    Houve ainda uma entrevista concedida pelo deputado federal Aluisio Mendes (PTN-MA) a uma rádio local em que ele comenta a retomada dos índios e se refere ao grupo como "pseudoindígenas". Ele diz ter falado com o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, a Funai e a Polícia Federal para "dar tranquilidade e alento a essa população tão ordeira e trabalhadora que está sendo ameaçada [pelos índios] nesse momento".

    "Foi um incitamento à violência que ocorreu no dia seguinte", diz Serejo, que também afirma que a polícia foi omissa, terminando de resgatar os indígenas por volta das 22h.

    "Hoje de fato passou uma viatura na rodovia estadual que corta nosso território. Pra gente é muito pouco. Apesar de o governo do Estado dizer que está agindo, pra gente é uma inação. Uma viatura que passa não está fazendo a segurança de um grupo que está sendo ameaçado", diz.

    INVESTIGAÇÃO

    Em nota, o governo do Maranhão afirmou que "a Polícia Militar atuou imediatamente no último domingo [...], evitando assim uma tragédia maior" e que a PM permanece no local.

    "Equipes da Polícia Civil foram imediatamente encaminhadas ao local e a Secretaria de Estado de Segurança Pública já instaurou inquérito para investigar as condições em que o conflito ocorreu. Equipe da Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular também está sendo deslocada para a área em conflito", diz a nota.

    O governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B), afirmou pelo Twitter que "apura se políticos instigaram ou não atos de violência, pois isso também é inadmissível".

    Em nota, o Ministério da Justiça informou que "está averiguando o ocorrido envolvendo pequenos agricultores e supostos indígenas". Minutos depois, o texto publicado no site do ministério foi editado e a palavra "supostos", retirada. Numa terceira mudança, saiu a palavra "indígenas".

    "O Ministério da Justiça e Segurança Pública está averiguando o conflito agrário no povoado de Bahias, no Maranhão", diz a versão final do comunicado.

    Segundo a assessoria, o ministro Osmar Serraglio determinou o envio de uma equipe da Polícia Federal para o local "para evitar mais conflitos" e "ofereceu apoio" à Secretaria de Segurança Pública do Maranhão.

    CONFLITOS

    Segundo a Comissão Pastoral da Terra do Maranhão (CPT-MA), há cerca de 360 conflitos por território no Estado. Em 2016, foram registrados 196 episódios de violência, levando a 13 assassinatos e outras 72 ameaças de morte.

    O povo Gamela já havia sofrido outros dois ataques, em 2015 e 2016.

    Somente no mês passado, conflitos por terras deixaram dez mortos —nove trabalhadores rurais em Colniza (MT) e um dirigente do MST (Movimento dos Trabalhadores Ruarais Sem Terra) em Minas. Outros três integrantes do MST foram baleados em Capitão Enéas, no norte de Minas.

    Em março, uma liderança do MST, Waldomiro Costa Pereira, foi morta a tiros em um hospital no Pará, onde estava internado após ter sido baleado.

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