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    Até Adam Smith seria contra privatizar Pacaembu, diz Ruy Fausto

    WALTER PORTO
    DE SÃO PAULO

    04/07/2017 14h26 - Atualizado às 20h46

    Zé Carlos Barretta/Folhapress
    Ruy Fausto, autor do livro 'Caminhos da Esquerda', durante debate no teatro da Livraria Cultura
    Ruy Fausto, autor do livro 'Caminhos da Esquerda', durante debate no teatro da Livraria Cultura

    Ao pensar o futuro da esquerda brasileira, o filósofo Ruy Fausto olhou no retrovisor para fazer um balanço das colaborações dos governos recentes do país –e segundo ele, não há muito o que salvar.

    O professor emérito da USP não poupou críticas ao PT e ao PSDB durante debate de lançamento do seu novo livro "Caminhos da Esquerda", promovido pela Folha e pela Companhia das Letras nesta segunda (3).

    O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para Fausto, "podia até querer" fazer grandes intervenções sociais enquanto esteve no cargo, mas não o fez. "E hoje ele apoia gente como João Doria [prefeito de São Paulo], com quem não tem nada a ver", continuou.

    "Há a ideia de que o racional é o mercado, mas até Adam Smith seria contra a privatização do Pacaembu", disse, em referência ao pai do livre mercado. "Colocar um pensamento egoísta para decidir a política cultural do Estado é um delírio. E hoje isso é tratado como moderno."

    Já Lula, para o filósofo, representa um modelo de "populismo fraco" que "já se esgotou". Na análise exposta no livro, o autor diz que a esquerda pode falhar em três direções: aderindo ao sistema capitalista (caso de FHC), recaindo no autoritarismo (como o venezuelano Hugo Chávez) ou incidindo no populismo –caso mais próximo ao governo petista.

    Ele defende que há necessidade de o campo esquerdista se redefinir, sem apostar suas fichas nos partidos que dominam esse lado do espectro atualmente (PT e PSOL). "Ou a esquerda faz isso ou ela morre."

    O sociólogo Celso Rocha de Barros, colunista da Folha, concordou que o modelo implementado pelo PT deve ser criticado, mas alertou para "não jogar fora a criança junto com a água da banheira".

    Zé Carlos Barretta/Folhapress
    SAO PAULO, SP, BRASIL, 03-07-2017, 20h00: Da esquerda para direita: Samuel Pessoa, economista, Celso Rocha de Barros, sociologo, Marcelo Coelho, mediador e Ruy Fausto, autor. Em debate sobre o livro 'Caminhos da Esquerda', lancado por Ruy Fausto na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. (Foto: Ze Carlos Barretta/Folhapress TREINAMENTO)
    O economista Samuel Pessôa, o sociólogo Celso Rocha de Barros, o mediador Marcelo Coelho e o filósofo Ruy Fausto em debate sobre o livro 'Caminhos da Esquerda', nesta segunda (3)

    Ele defende que há um "núcleo a ser preservado no PT" para avançar na construção de uma alternativa social-democrata no país. As políticas redistributivas implementadas no governo Lula, para ele, são caso de sucesso.

    "As pessoas não estão interessadas se a nova matriz econômica petista superou o neoliberalismo, mas no quanto a vida dos pobres melhorou. Em termos de desigualdade, o Brasil ainda vive nos tempos [do seriado britânico] Downton Abbey..."

    O economista Samuel Pessôa, que também participou do debate, criticou os mandatos petistas por terem gerido as relações com o Congresso pior que o governo anterior ("virou um presidencialismo de cooptação") e por terem pesado a mão no intervencionismo ("foi um desastre").

    Vídeo do debate

    Mas para ele, o primeiro mandato de Lula representou um verdadeiro governo social-democrata. "Ele roubou o programa de governo do FHC, mas isso é natural na política". Isso mudou, segundo Pessôa, quando o ex-ministro Guido Mantega assumiu a Fazenda.

    O colunista da Folha e professor da FGV contou ter sido favorável, em 2006, a uma guinada à direita do PSDB, para fazer contraponto à posição social-democrata que já estava ocupada pelo PT.

    PÓS-CAPITALISMO

    Fausto defende um modelo de "pós-capitalismo", já que o sistema capitalista "implica muitos sofrimentos, catástrofes". Para ele, é preciso agir "para que formas não capitalistas dentro da sociedade de mercado se transformem em hegemônicas".

    Pessôa disse que o incomoda na esquerda a "visão crítica antipragmática", especialmente nas questões econômicas, e o "tom conspiratório".

    "É algo ingênuo, como se precisasse vir alguém iluminado para resolver [os problemas]. Sinto falta de uma explicação de como as coisas vão ser implementadas. Há uma baixa paciência da esquerda com a tecnicidade."

    O debate, mediado por Marcelo Coelho, colunista da Folha, lotou o teatro Eva Herz da Livraria Cultura, na avenida Paulista.

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