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    fórum economia limpa

    À espera de reciclagem, cápsulas de café sobrecarregam aterros sanitários

    NÁDIA PONTES
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    23/06/2016 02h00

    Mário Araújo nunca deixou de apreciar o sabor do café coado. Mas já faz três anos que trocou o filtro de papel por cápsulas. "É mais prático. E eu moro sozinho", justifica. Do lixo, a cápsula segue o destino da maior parte das quase 8.000 toneladas consumidas no país todo ano: o aterro sanitário.

    A reciclagem desse tipo de produto ainda não funciona bem no Brasil. Além da borra do café, a maior parte das cápsulas é feita de diferentes tipos de plástico, alumínio e papel. "A cápsula de material composto dificulta ou quase inviabiliza a reciclagem por causa do custo da separação dos materiais", diz Sylmara Gonçalves Dias, professora de gestão ambiental da USP.

    O problema não é exclusivo do Brasil. Segundo o livro "Caffeinated, How Our Daily Habit Helps, Hurts and Hooks Us" (sem tradução para português, ed. Penguin, US$ 16), de Murray Carperter, as cápsulas vendidas em 2011 da marca Keuring, que lançou a novidade em 1992, dariam seis voltas e meia na Terra.

    Quando leu isso, o canadense Mike Hackney foi conferir se a cidade onde vive, Halifax, reciclava o material. "Descobrimos que as cápsulas das cinco máquinas do escritório iam direto para o lixo. Então mudamos o jeito de tomar café", contou à Folha.

    Ele iniciou uma campanha para incentivar a atitude e, com colegas publicitários, produziu um vídeo em que o planeta é atacado por aliens formados por cápsulas de café. "Queremos conveniência, mas a qual custo?", questiona o idealizador do curta.

    A repercussão fez o criador das cápsulas entrar em contato com Hackney. E a Keuring prometeu embalagens 100% recicláveis até 2020.

    A suíça Nespresso também afirma ter como meta a reciclagem de todas as cápsulas da marca até 2020. Introduzida no mercado brasileiro em 2006, a cápsula ganhou processo de reciclagem cinco anos depois. "O equipamento que temos hoje separa o café do alumínio e foi desenvolvido no Brasil", conta Claudia Leite, da Nespresso.

    O alumínio vai para a indústria de transformação, e a borra vira adubo. Mas a cápsula só ganha nova vida se o consumidor a devolve num dos 23 pontos de coleta. "Eu não sabia que havia um sistema de reciclagem", diz Mário Araújo. A empresa, porém, não divulga detalhes sobre o impacto da iniciativa.

    Por enquanto, a geração de resíduos ainda é proporcional ao volume de vendas. A Kaffa, que faz encapsulamento para grandes marcas, tem capacidade de produzir 350 milhões de cápsulas por ano.

    PROIBIÇÃO

    Hamburgo, na Alemanha, optou por uma solução radical e baniu qualquer versão do produto nos prédios públicos. "Buscamos produtos que tenham um menor impacto ambiental ao longo do seu ciclo de vida", informou à Folha Björn Marzahn, da secretaria de Meio Ambiente de Hamburgo.

    A mudança de conduta de empresas e governos acontece mais rápido quando o consumidor se posiciona, opina Miguel Moraes, da IUCN (International Union for the Conservation of Nature). "Quando o consumidor fica mais consciente, ele restringe o consumo", diz. Em parceria com a indústria, a ONG desenvolve um programa de práticas sustentáveis na cadeia fornecedora de café.

    Diminuir a produção de lixo é parte da solução, avalia a especialista da USP. "A gente ainda permite produção de materiais que não são recicláveis. Temos que atuar na prevenção de geração de resíduos", diz Gonçalves Dias.

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