• Seminários Folha

    Tuesday, 16-Aug-2022 10:07:59 -03

    fórum exploração sexual infantil

    Relatos selvagens são rotina no serviço que recebe denúncias de abuso infantil

    VAGUINALDO MARINHEIRO
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    22/05/2017 02h00

    Adolescente é abusada sexualmente pelo avô, que, denunciado, ameaça matar toda a família. Homem mantém fotos de meninas nuas em seu celular. Funcionam como atrativos para outros homens que pagam R$ 150 por um programa. Mãe e padrasto agenciam adolescente. Ato sexual acontece dentro da própria casa da menina. Avós, bisavós, tios, vizinhos abusam de crianças em troca de doces, roupas, brinquedos, crédito no celular.

    Relatos escabrosos como esses são ouvidos às dezenas todos os dias em uma sala de paredes brancas, piso azul, luzes fluorescentes fortes e fileiras de baias onde 200 atendentes se revezam em turnos de seis horas de trabalho.

    Na maioria mulheres na casa dos 25 aos 35 anos, ostentam os instrumentos clássicos de um call center: computador, telefone e headphone com o microfone acoplado. Em vez de tentar vender algum produto, buscam salvar pessoas que são exploradas, agredidas, abusadas.

    Trabalham para o Disque 100, ligado ao Ministério dos Direitos Humanos. Ao todo, o serviço recebeu no ano passado 122.959 denúncias de violação dos direitos humanos, o que inclui maus-tratos de idosos, trabalho escravo, racismo. Mas são os casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, que somaram 15.707 em 2016 (43 por dia, em média), que causam mais comoção.

    Os atendentes e o lugar onde trabalham não podem ser identificados por questões de segurança, já que envolvem denúncias de crimes. A Folha esteve no local no início do mês e acompanhou a rotina do centro.
    À primeira vista poderia ser confundido com um ambiente de trabalho normal. A destoar, a sala de apoio psicológico, cartazes nas paredes sobre as várias formas de violência (sexual, psicológica, física...) e o semblante fechado da maioria.

    O apoio psicológico aos atendentes é obrigatório: uma hora por semana em sessões em grupo. Mas pode ser acionado a qualquer momento, individualmente, quando uma história ultrapassa o limite de cada um. "Sempre tem uma ligação que abala, que te obriga a parar. Depende muito do seu histórico", afirma uma atendente.

    Não é incomum que uma pessoa levante a mão, chame o superior e peça que a ligação seja transferida para outro atendente. Se necessitar do apoio psicológico nesse momento, vai ouvir sobre a importância do trabalho e que precisa "limitar a absorção das situações".

    Todos os atendentes têm formação em ciências humanas ou sociais. São, preferencialmente, assistentes sociais ou psicólogos. Uns poucos ainda estão na faculdade. São divididos em dois grupos: generalistas e especialistas. Toda ligação passa pelo primeiro grupo: "Disque Direitos Humanos, bom dia. Meu nome é fulano, em que posso ajudar?" é a frase inicial.

    Muitas vezes, do outro lado da linha, apenas um silêncio. Pode significar que a pessoa desistiu da denúncia ou está com muito medo. Um dos coordenadores afirma que, quando é a própria vítima a ligar, parece haver relação direta entre os silêncios (mais longos e frequentes) e a gravidade do caso (mais sério).

    Quando a vítima é uma criança ou adolescente, e é ela mesma que liga, o chamado é transferido para um especialista. É preciso ganhar a confiança e fazer com que a pessoa se sinta acolhida, segura.

    Para isso, o tom de voz faz a diferença. A sequência de perguntas, também. Não adiante iniciar um interrogatório com nome, endereço, idade. Há uma série de outras questões que devem vir antes: "Alguém fez alguma coisa com você que te deixa envergonhada?"; "Isso que quer me contar, já contou para alguém?"; "Como está se sentindo neste momento?"; "Quem fez isso com você?".

    Nada é gravado, e a pessoa só se identifica se quiser. Mas, para que a denúncia seja encaminhada e produza efeitos, é necessário conseguir o maior número de dados (local preciso em que o abuso ou exploração acontece, nome dos criminosos, frequência e há quanto tempo ocorre). Depois, tudo será repassado para Conselhos Tutelares (farão a acolhida das vítimas), polícia e Ministério Público (cuidarão das investigações).

    Há casos de crianças que não conseguem falar. Começam a cantar músicas e trocam a letra, incluindo nos novos versos informações sobre o crime. Uma vez estabelecido um vínculo, chamam as atendentes de tias, doutoras.

    Os agressores/exploradores são, na maioria das vezes, conhecidos (familiares, vizinhos, amigos dos pais), o que faz com que, no meio da conversa, muitas vítimas demonstrem preocupação com o que irá acontecer. Perguntam se o pai ou a mãe correm risco de serem presos, se vão ter que sair de casa, se vão acabar num orfanato.

    Há abusos cometidos também por avós e até bisavós, que contrariam o senso comum por terem menos de 50 anos –são frutos de sucessões familiares de gravidezes precoces.

    Abuso sexual - Estados com mais casos,?por 100 mil habitantes

    Exploração sexual - Estados com mais casos,?por 100 mil habitantes

    Às vezes a ligação é interrompida com o barulho de uma porta abrindo ou de um grito. Pode significar que o agressor chegou. Se não tiverem sido coletadas as informações suficientes para a localização da vítima, é uma chamada perdida, o que causa enorme frustração.

    Há, claro, o mau uso do serviço. Crianças e adolescentes passam trote (isso aumenta nas férias escolares) e, nas madrugadas, são comuns os masturbadores –homens que ligam para relatar que são abusadores de crianças.

    Se for outro homem que atende, desligam. Se for uma mulher, estendem a conversa e querem contar detalhes do ato que supostamente praticaram. Isso os excita. Atendentes contam que, nessas horas, é possível ouvir a respiração ofegante do outro lado da linha.

    Apesar da vontade, não podem simplesmente desligar. É preciso desencorajar a pessoa de dar detalhes e tentar conduzir a conversa para algo mais técnico. Se forem mesmo masturbadores, se irritam e desligam.

    Para os atendentes, é hora de respirar fundo e aceitar a próxima ligação, numa sequência apenas interrompida com o fim do turno, após um dia emocionalmente exaustivo que traz, no entanto, compensações também emocionais.

    Na maioria das baias, há uma bandeirinha com os dizeres: "Aqui eu faço diferença". É um estímulo e uma verdade. Que o digam as vítimas que conseguiram escapar de uma rotina de abusos e explorações sexuais.

    *

    RELATOS SELVAGENS

    NUDEZ NO CELULAR
    "Adolescentes são exploradas sexualmente por suspeito. Os fatos ocorrem há aproximadamente um ano, diariamente, em um motel. Suspeito mantém fotos das adolescentes em seu aparelho celular e, por meio de um aplicativo, oferece a outros homens encontros sexuais com elas por valores que variam de R$ 150 a R$ 400. Metade do valor é entregue às adolescentes."

    FEIRA AGROPECUÁRIA
    "Adolescente com doença mental é abusado sexualmente pelo irmão e por outros suspeitos. Os fatos ocorrem há cerca de um ano e meio, na rua e na casa da vítima. Há relatos de que ele está tendo relações sexuais com homens em troca de dinheiro, que é repassado para a mãe. Na cidade em que vive, está acontecendo uma feira agropecuária. O adolescente participa dessa festa e só retorna para casa por volta das 3h."

    PAGAMENTO EM LANCHE
    "Adolescentes estão sendo exploradas sexualmente por suspeito. Os fatos ocorrem há mais de três anos, diariamente, na residência do suspeito. Ele explora as vítimas de aproximadamente 12 a 13 anos, oferecendo dinheiro, lanche e outras coisas em troca do ato sexual. Três adolescentes vão ao local com frequência. Outras, esporadicamente. Frequentam o local das 12h às 24h."

    CAMINHONEIROS NO POSTO
    "Crianças e adolescentes são exploradas por caminhoneiros e homens de nomes não informados. Os fatos ocorrem diariamente, nas ruas. As vítimas costumam sair com caminhoneiros e homens em troca de dinheiro. Os suspeitos frequentam um bar, no estacionamento do posto de gasolina. Uma das crianças está grávida, e a outra foi empurrada do caminhão, caindo no chão e machucando o cotovelo."

    SEXO POR R$ 15
    "Adolescentes são exploradas sexualmente por suspeito. Os fatos ocorrem há três meses, ocasionalmente, na casa dele. As vítimas saem para ir para a escola e vão para a casa do suspeito que paga R$ 15,00 para ter relações com elas. As adolescentes usam roupas curtas, assistem a filmes pornôs e tiram fotos nuas."

    ÁLCOOL E MACONHA
    "Adolescentes são negligenciadas e exploradas sexualmente por dois suspeitos de nomes não informados. Os fatos ocorrem diariamente, a partir das 12h, na casa dos suspeitos. Eles dão bebidas e utilizam maconha na frente das vítimas. No local ocorre prostituição, e meninas de 13 e 14 anos têm relações sexuais em troca de bebidas e drogas. O conselho tutelar da cidade esteve no local, mas os suspeitos fugiram."

    BISAVÔ E CONIVÊNCIA
    "M. foi abusada pelo bisavô materno, é negligenciada pela mãe, pela avó materna e pela bisavó materna, todas coniventes. A mãe flagrou a filha com a calcinha abaixada e o bisavô acariciando a vagina da menina. Ela o ameaçou com faca, mas não foi à polícia, dizendo ter pena dele. O suspeito molesta qualquer criança que frequente a sua casa. A família toda é ciente dos abusos. M. está traumatizada."

    NA QUADRA DO PRÉDIO
    "Adolescentes são explorados por desconhecido. Os fatos ocorrem há três anos, diariamente, das 17h à 22h, na casa do suspeito. Ele oferece dinheiro aos adolescentes para manter relações sexuais com eles. Os adolescentes ficam na quadra do prédio em que moram. Suspeito se aproxima e os convence a subir para o seu apartamento. Entra, fica lá com as vítimas, depois de um tempo sai e vai tentar abordar outros meninos."

    CRÉDITOS NO CELULAR
    "Adolescente é explorada por desconhecido e negligenciada pelos familiares. O suspeito seduz a vítima quando ela vai ao bar comprar algo a pedido da mãe. Ele a chama, pega em suas mãos, a alisa e faz gestos obscenos. O suspeito colocava créditos no celular da menina e dava dinheiro em troca de sexo. Na última semana, pulou o muro da casa da vítima e teve relações com ela."

    PIERCINGS E PEDIDOS
    "Adolescente é negligenciada e aliciada pela mãe. A suspeita permite que a filha tenha relações com um rapaz de 24 anos. A suspeita autorizou a criança a por piercings no nariz e umbigo, além de andar com roupas curtas e ensiná-la a pedir coisas aos homens com quem se relaciona. Foi informado de que as redes sociais da vítima têm conteúdo pornográfico e de que o pai tem conhecimento dos fatos, porém, nada faz."

    Edição impressa

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2022