• Serafina

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    Cineasta Anna Muylaert vai do quarto de empregada ao tapete vermelho

    POR ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
    FOTOS PABLO SABORIDO

    25/10/2015 02h00

    Pablo Saborido
    Pronta para o combate - quem é a mulher por trás do filme 'Que horas ela volta?', um retrato do embate de classes no país que vem acirrando ânimos dentro e fora dos cinemas; a mil por hora, Anna Muylaert roda o mundo em festivais e mergulha na disputa pelo oscar 2016#serafina91

    Uma hora Anna Muylaert volta. A cada dois meses, a cineasta nascida e criada na elite paulistana paga em média R$ 120 numa passagem de classe econômica e voa até Goiânia. Desembolsa mais R$ 120 num transfer rumo a Abadiânia, a 80 km da capital goiana. Lá João de Deus, médium que opera cirurgias espirituais dentro de uma casa azul e branca, a tem de regresso.

    É a este Ivo Pintaguy da alma, na agenda de políticos (Dilma Rousseff e Lula) e celebridades (Fábio Assunção e Juliana Paes), que Anna recorre desde que terminou de filmar "Que Horas Ela Volta?", em fevereiro de 2014. "Eu estava mal, sem namorar havia quatro anos, vinha de um ritmo intenso de trabalho."

    Em vez de desacelerar, ela comprou outro tíquete aéreo, desta vez para Los Angeles, onde esteve neste mês de outubro. Contratou a "lobista" de Hollywood Fredell Pogodin, que nos anos 1980 coordenou a produção de "Curtindo a Vida Adoidado" e hoje bola estratégias publicitárias para emplacar obras como a polonesa "Ida" no Oscar. "Dos 109 filmes que ela produziu, 40 entraram na disputa", afirma a diretora.

    Anna é a primeira mulher em 30 anos a representar o Brasil na pré-seleção para concorrer a melhor filme estrangeiro -antes veio Suzana Amaral, com "A Hora da Estrela" (1985). Ela não vai assumir de cara, mas é claro que está ansiosa. Seus outros longas foram elogiados ("Durval Discos", "É Proibido Fumar" e "Chamada a Cobrar") pela crítica, mas não chegaram perto do público do novo: 470 mil pessoas até agora.

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    PEGANDO FOGO

    Entre os 87 filmes nacionais que entraram em cartaz neste ano, 13 foram dirigidos por uma mulher (15%). E nenhum causou tanta comoção quanto "Que Horas...?" —pelo que é mostrado na tela e pelo que ocorreu fora dela.

    Polêmica nº 1: a produção, feita para ser um tratado sobre o embate de classes à brasileira, ateou por tabela uma discussão sobre machismo no cinema como há tempos não se via no país. Tudo começou com a taça de vinho que o ex-namorado Cláudio Assis tomou antes de um evento sobre a obra no Recife.

    O diretor de "Amarelo Manga" estava um pouco embriagado. Interrompeu o debate várias vezes, junto com Lírio Ferreira ("Sangue Azul"). Ainda chamou a protagonista Regina Casé de "gorda". Anna viu ali o vício masculino por protagonismo, agravado pela ofensa a Regina. "Nunca chamaram FHC de barrigudo. Dilma é gorda, Lula não é."

    Meses depois, Cláudio acabou vaiado no Festival de Brasília. "Machistas não passarão!", gritavam-lhe do público.

    A amizade ficou abalada, diz o diretor. "Tô quase sendo apedrejado na rua."

    O burburinho em torno do "Que Horas...?" ganhou corpo em janeiro, quando Regina Casé e Camila Márdila racharam o prêmio de melhor atriz no festival de Sundance, pelos papéis de Val e Jéssica, mãe e filha, doméstica subserviente e vestibulanda engajada.

    Val cria o filho de dona Bárbara (Karine Teles), a matriarca que trabalha com moda, e seu Carlos (Lourenço Mutarelli), pintor frustrado que usa camiseta dos Ramones. Deixada em Pernambuco, Jéssica vem morar com a mãe na casa dos patrões. Vai tentar o vestibular.

    Primeiro ela é recebida com dó —a filha da empregada acha que passará na escola de arquitetura da USP? A linha dramática se desenrola na medida em que Jéssica atropela convenções sociais "que todo mundo conhece sem precisar dizer", como tomar o sorvete gourmet do filho do casal.

    Anna diz que quis filmar uma carapuça que também a vestia —e, se você já teve empregada, provavelmente ela também é o seu número. "Quis colocar patrões que fossem jovens e legais, não patrões de uma elite velha e escrota."

    Ana Luiza Machado da Silva Muylaert —ela adicionou um "n" no nome por achar mais artístico— cresceu numa casa grande com piscina no Alto de Pinheiros e hoje mora numa casa grande com piscina no Alto da Lapa. Não é raro ver neste bairro de São Paulo empregadas de uniforme e avental branco. A cineasta emprega uma por R$ 2.000, mas dispensa as formalidades na vestimenta.

    A campainha fica ao lado de um picho no muro que diz: "Isto pode ser um poema". Quem abre a porta é Raimunda. Ela trabalha para a família há nove anos no total (voltou em 2013, após um tempo fora). Está grávida de cinco meses —já dá para ver as "perninhas cruzadas" no ultrassom, conta, sorrindo.

    A doméstica Raimunda, que disse ter visto três vezes a história da doméstica Val, resistiu a uma ideia da patroa. Após rodar "Que Horas...?", Anna transformou o quarto de empregada num cômodo para hóspedes ("tirei essa cicatriz colonial da casa") e fez um pedido. "Cheguei e disse: 'Não dá, você tem que comer com a gente'. Ela não aceitou."

    Raimunda só se senta à mesa quando Anna está sozinha. Vestindo uma camisa onde se lê "World Cinema Amsterdam'", pede desculpa pelo barulho do liquidificador (está batendo limonada).

    Depois do almoço, a diretora se estira numa "chaise longue" à beira de piscina e conta que Val tem a personalidade de Dagmar, sua babá na infância.

    A mãe de Anna, a dona de casa Celina, achava "cafona" amamentar, como tantas mulheres na época. "O jantar era servido à francesa, com bandejas", lembra. Aos sete, Anna foi namoradinha de Nando Reis na escola Bola de Neve. Quando a professora pedia para desenhar a família, ela sentia algo errado ali. "Desenho a empregada ou não? Tinha impressão que, se sim, minha mãe ficaria brava. Com ciúme."

    ASSISTA AO TRAILER DE "QUE HORAS ELA VOLTA?"

    Trailer oficial de "Que horas ela volta?"

    O pai, Roberto Muylaert, presidiu as fundações Bienal e Padre Anchieta, que dirige a TV Cultura. Foi lá que a filha formada na ECA, Escola de Comunicação e Artes da USP, roteirizou os clássicos "Mundo da Lua" e "Castelo Rá-Tim-Bum".

    Em 2015, seu filme tem mexido com as pessoas em volta, diz. Uma amiga veio lhe dizer que também reformou o "quartinho" da empregada. Cauã Reymond contou que subiu o salário da sua.

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    A DURAS PENAS

    Anna inspira segurança. Tem cabelos revoltos como o de Gal Costa —em sua casa, o LP "Índia" decora o escritório. Usa meia arrastão e tatuagem prateada no braço, daquelas que saem após lavar. Conta que tem "experimentado" com mulheres. "Mas nunca transei."

    Namora há um ano e meio. Encontrou-o no set de "Que Horas...?". "Chamei o pai de santo Kabila para benzer o filme. Em vez de vir com uma vela, ele trouxe 1 kg de ervas e 20 pessoas." Uma delas era Luciano Bortoluzzi, ator e palhaço que batucava o tambor. Anna gostou do que viu. "Tenho fascínio por homem de óculos e cara quadrada."

    Anna gosta também de budismo e meditação. Mas um de seus mantras vem de Mick Jagger. Ela conviveu com o stone no set de "Running Out of Luck" (1987), do inglês Julien Temple.

    Assistente de direção do longa rodado no Brasil, aprendeu com Mick a jamais "fazer o que você não quer".

    No passado, ela relevava se colegas fitavam sua bunda no set e nem sempre tinha coragem de exigir crédito em roteiros que acabavam assinados só por homens. Hoje, acha que aprendeu a se impor, "a duras penas".

    "O homem me humilha, caga na minha cabeça, e eu tento falar com respeito. Se você fica brava, ele diz que é louca. Mas, às vezes, é necessário o berro."

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    ACERTANDO OS PONTEIROS

    Em 1995 o Brasil era outro. FHC virou presidente, É o Tchan estourou com "Pau que Nasce Torto" e 19% das trabalhadoras no país eram domésticas, segundo o IBGE. Foi também o ano da retomada do cinema nacional (14 produções brasileiras, duas dirigidas por uma mulher).

    Também nascia o primogênito de Anna, José, com o então marido, o multiartista André Abujamra (ela foi mãe solteira do caçula, Joaquim, 15).

    Eventualmente contratou uma babá. O projeto "Porta da Cozinha", sobre uma sociedade que terceirizava o trabalho de pôr a "mão na merda" do filho, surgiu por aí. Val era "uma líder espiritual na favela que lia o futuro no cocô das pessoas, meio Gabriel García Marquez". Jéssica, uma aspirante a cabeleireira que virava babá.

    Em 2013, Anna leu "Casa Tomada", conto de Julio Cortázar sobre irmãos que vivem num lar herdado e se aterrorizam quando algo toma "a parte dos fundos".

    Só aí seu roteiro engatou. Decidiu que Jéssica devia tomar a casa dos patrões da mãe. Assim nasceu "Que Horas Ela Volta?", o filme para um Brasil que acerta os ponteiros com seu passado.

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