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    Obra do cantor Johnny Cash reflete devoção aos fora da lei

    THALES DE MENEZES
    DE SÃO PAULO

    25/01/2018 02h00

    Muita gente se surpreende ao descobrir que Johnny Cash nunca cumpriu pena numa penitenciária.

    Seus quatro álbuns que registram shows em prisões são praticamente um agradecimento a quem inspirou muitas de suas canções.

    Os fora da lei sempre foram combustível para suas letras, desde o início na música country. Tudo começou com "Folsom Prison Blues".

    Escrita em 1953, a canção entrou em seu álbum de estreia, "Johnny Cash and His Hot and Blue Guitar", de 1957.

    Um dos versos mais contundentes é "But I shot a man in Reno/ just to watch him die" ("Mas eu atirei em um homem em Reno/ só para vê-lo morrer").

    O cantor disse que imaginou a maneira mais estúpida pela qual um homem poderia matar alguém e descartou qualquer história real que o tivesse inspirado.

    Apesar da fama de encrenqueiro desde a adolescência, "Folsom Prison Blues" não tem ligação com episódios conturbados da vida de Cash.

    Ele servia o Exército americano numa base na Alemanha, em 1951, quando assistiu ao filme policial "Inside the Walls of Folsom Prison", do pouco badalado diretor americano Crane Wilbur.

    O longa, ficcional, foi o primeiro retrato realista das prisões americanas, e Folsom tinha reputação, justificada, de ser uma das mais violentas.

    Apadrinhado nos anos 1950 por Sam Phillips, o homem que também lançou Elvis Presley, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis, o cantor teve ascensão meteórica e liderava alternadamente as paradas de música country e de rock.

    Para evitar uma competição entre pupilos, Phillips minimizou a parcela roqueira de Cash para deixar Elvis sozinho como rei do rock. E a parada country ganhou entre seus astros bem comportados um com fama de mau (seu guarda-roupa deu a ele o título de "o homem de preto").

    E a fama era bem defendida: ele bebia demais, se drogava, brigava com amigos, inimigos e policiais, além de levar uma vida amorosa agitada. Tudo isso é bem mostrado na ótima cinebiografia "Johnny & June", de 2005, com Joaquin Phoenix como o personagem principal.

    As figuras de "Folsom Prison Blues" e outras músicas sobre detentos geraram um grande número de cartas escritas a Cash por condenados.

    Nos anos 1960, ele chamou a atenção da imprensa para condições desumanas em prisões dos Estados Unidos.

    O cantor levou anos para convencer autoridades, empresários e donos de gravadoras de que sua ideia de gravar um show em Folsom poderia ser realizada. Assim, na efervescência da contracultura daquela década, o anúncio de que cantaria na prisão no dia 13 de janeiro de 1968 ganhou ares de ato político.

    A performance eletrizante, bem mais roqueira do que ele costumava fazer, transformou o disco num clássico das gravações ao vivo. Ele motivou mais três álbuns "atrás das grades". Dois nos Estados Unidos, "At San Quentin" (1968), na prisão californiana, e "A Concert: Behind Prison Walls" (1974), no Tennessee. E um numa prisão sueca, "Pa Osteraker", de 1973.

    Cash teve fases distintas na vida e na carreira, entre sucessos e fracassos, mas ultrapassou 90 milhões de discos vendidos pelo mundo.

    Entre álbuns originais de estúdio, registros ao vivo e coletâneas, são mais de 200 títulos no catálogo de Cash. Todos com seu vozeirão inigualável e sua devoção aos homens que tomaram o caminho errado na vida.

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