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    São Judas, estrela da rota do frango com polenta do ABC, fecha as portas

    MAGÊ FLORES
    DE SÃO PAULO

    07/01/2016 14h12 - Atualizado às 19h08

    Reprodução/Facebook/saobernardodocampo.info
    Inaugurado em 1949, o prédio onde funcionava o tradicional Restaurante São Judas foi vendido pela família Demarchi. Em razão dos prejuízos acumulados, o mais antigo estabelecimento da Rota do Frango com Polenta fechou as portas para o público e tem destino incerto.
    O restaurante São Judas Tadeu, inaugurado em 1949, fechou as portas neste mês

    Em 1949, os caçadores que passavam por São Bernardo do Campo, no ABC paulista, avisavam a dona Santa Demarchi: "Queremos almoçar na volta da caçada. A senhora pode matar um frango e preparar para nós?".

    Os frangos, criados no quintal, eram temperados com muitas ervas e preparados em molho de tomate, e servidos sobre uma polenta mole.

    Com o tempo, aqueles caçadores passaram a levar as famílias, nos fins de semana, e dona Santa colocou mais mesas no espaço. Foram várias ampliações até o restaurante São Judas chegar a seus atuais 16 mil metros quadrados (pouco mais que o equivalente a dois campos do estádio do Morumbi).

    Até o dia 1o de janeiro, no salão do primeiro andar poderiam almoçar 2.850 pessoas. Com os andares superiores, que a família Demarchi abria para eventos, seriam até 4.200 clientes.

    "Era um restaurante extremamente democrático, havia tanto executivos quanto trabalhadores", lembra o secretário municipal de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy. "Passei a frequentar o São Judas quando comecei a interagir com os metalúrgicos do ABC e o presidente Lula, em 1976".

    A casa, uma das maiores do país, fechou as portas definitivamente na semana passada. "Não existem mais restaurantes com esse tamanho, e com os custos que isso demanda. Hoje as casas são pequenas, com alta rotatividade", diz Vinícius Demarchi, 31, neto de dona Santa.

    "A crise afetou o ABC paulista e também o São Judas. Há anos os resultados vêm diminuindo e fechar as portas foi a melhor decisão", explica ele, que, por anos, foi gerente operacional da casa.

    No Facebook e em sites de avaliação como o Tripadvisor, clientes também avaliavam que a qualidade da comida caiu.

    O caçula da terceira geração tem na memória números áureos do restaurante.

    Em 2005, a casa atendia 65 mil clientes por mês. Em 2010, eram servidas entre cinco e seis toneladas de frango por semana. "Nos anos 1990, em um Dia das Mães, atendemos 11 mil pessoas em um único dia."

    Mas os números mudaram ultimamente. A frequência passou a ser de 18 mil clientes por mês.

    Também mudou a receita mais famosa, de acordo com os pedidos da própria clientela: a carne ensopada passou a ser frita, assim como a polenta.

    O frango à passarinho ficava na salmoura antes de entrar nas grandes fritadeiras, de 200 litros cada uma, e por lá ficava por cerca de dez minutos, até ganhar um tom dourado. "O segredo era a alta temperatura [de 200ºC] do óleo. Como as fritadeiras eram grandes, não havia perda de calor com a entrada das porções."

    O sucesso da receita atraía gente de longe (e alguns famosos) para a região, que passou a ser conhecida como rota do frango com polenta –integrada por outras casas que seguiram o sucesso do São Judas e abriram por ali.

    "Vieram Maradona, Pelé e muitos artistas", diz Demarchi –também se apresentaram na casa nomes como Milton Nascimento, Toquinho, Sérgio Reis e Chitãozinho e Xororó. "Só nunca conseguimos trazer o rei Roberto Carlos."

    O São Judas também era conhecido por ser sede de reuniões de políticos, principalmente com o ex-presidente Lula, morador de São Bernardo do Campo. Em 2006, por exemplo, a colunista Mônica Bergamo informou que, em um jantar de arrecadação de fundos para o PT, a casa tirou do cardápio sua tradicional salada de lula.

    "Muita gente fala isso, mas nos últimos anos acho que ele deve ter entrado duas ou três vezes lá."

    O vice-prefeito de São Bernardo, Frank Aguiar, lembra que conheceu a atual mulher no São Judas –onde chegou a fazer a festa de casamento. "Há mais de dez anos eu tinha o hábito de fazer ao menos um show por ano lá –sempre estavam superlotados", diz.

    "Quando eu tinha reuniões para fazer na hora do almoço, sempre marcava lá e pedia um frango desossado na brasa ao Tatu –o garçom-cantor de lá, que chegou a tocar no meu DVD de 20 anos de carreira e que sempre chamo para trabalhar quando dou festas em casa", conta. "A casa não pode fechar, é um dos maiores patrimônios gastronômicos e culturais do ABC".

    O ministro das Cidades, Gilberto Kassab, é outro que lembra com carinho do São Judas. "Quem não tem uma lembrança de lá? Era uma casa muito acolhedora, apesar do tamanho", diz.

    A sede do restaurante, que tem duas franquias, foi vendida a um grupo "com interesses mobiliários". "A intenção da família, que esteve a vida inteira nesse ramo, é de abrir outra coisa. Mas não nesse momento do mercado", diz Demarchi.

    As franquias (uma em Jundiaí e outra em um shopping de São Bernardo) devem permanecer abertas.

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