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    Meninas de 6 anos já não se acham inteligentes e desistem de atividades

    PHILLIPPE WATANABE
    DE SÃO PAULO

    01/02/2017 02h00

    Meninos lideram, fazem grandes descobertas científicas e são muito, muito inteligentes. As meninas, nem tanto. É essa a imagem que muitas garotas têm de si mesmas já a partir dos seis anos de idade, segundo pesquisadores americanos.

    Eles chegaram a esses resultados depois de realizar uma série de experimentos com 400 crianças entre os cinco e os sete anos –segundo os cientistas, é a partir dessa idade que os estereótipos relacionados a gênero começam a se firmar.

    Os resultados foram publicados na última edição da revista científica "Science".

    Em um dos testes realizados, os cientistas contavam para as crianças uma história sobre alguém "muito, muito inteligente". Um cuidado especial dos cientistas era não dar pistas ou indicações sobre o gênero de quem protagonizava o conto.

    Os pesquisadores, então, pediam para as crianças associarem a trama a um de quatro adultos (duas mulheres e dois homens) desconhecidos que eram apresentados a elas.

    Até os cinco anos, garotas e garotos associavam de modo semelhante o próprio gênero à inteligência. Contudo, a partir dos seis anos, as garotas se mostravam significativamente menos propensas a fazer tal associação.

    Os pesquisadores, após novos testes, decidiram verificar se a percepção em relação à inteligência de alguma forma influenciava interesses.

    Para isso, foram apresentados às crianças jogos inventados. Um deles destinado a pessoas "muito, muito inteligentes" e o outro para os "muito, muito esforçados".

    Meninas e meninos de cinco anos apresentaram interesse semelhante no jogo para quem é "brilhante".

    Contudo, a partir dos seis anos, as meninas se mostravam menos interessadas no jogo para crianças "muito, muito inteligentes".

    "É bem possível que, a longo prazo, esse estereótipo afaste jovens mulheres de carreiras supostamente associadas à ideia de genialidade", afirma à Folha Lin Bian, doutoranda da Universidade de Illinois e uma das autoras da pesquisa.

    Sarah-Jane Leslie, filósofa da Universidade de Princeton e também autora do estudo, lembra de uma ocasião em que ela presenciou dois professores de outras universidades discutindo se havia na filosofia alguma mulher que pudesse ser considerada "genuinamente inteligente".

    "Eles encontraram um nome e, na minha frente, falaram que todas as outras de que lembraram 'não eram assim tão espertas'", diz Leslie.

    Os autores afirmam que não há como determinar um único fator responsável pelo o que observaram no estudo. Segundo eles, é um fenômeno cultural, relacionado ao mundo ao redor da criança.

    Outro estudo, de 2011, publicado na revista "Child Development", havia observado que garotas e garotos entre seis e dez anos associavam matemática a homens.

    'PRINCESINHA'

    Segundo Marcia Barbosa, física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos principais nomes no país a discutir relações de gênero no meio acadêmico, a questão da inteligência, independentemente da idade, é muito mais forte em áreas ligadas às ciências. "Quanto mais exatas, pior fica. As mulheres sentem que não é o clube delas, como se não pertencessem a ele."

    Para Marcia, isso começa na infância. "Desde cedo passamos para a menina a visão de que ela precisa ser bonitinha, princesinha", diz. "O papel dela é ser princesinha."

    Ela afirma que esse papel, com o tempo, cria uma barreira. "Há uma autoexclusão nesse processo de se enxergar como menos do que você é."

    Luis Saraiva, psicólogo do laboratório de estudos da família, relações de gênero e sexualidade do Instituto de Psicologia da USP, afirma que atitudes de professores também podem reforçar estereótipos.

    "Meninos são convocados a brincadeiras de estratégia, como xadrez, com muito mais frequência que meninas", diz. "Isso faz com que se atrele papéis a esses sujeitos."

    Segundo a Unesco, professores, de ambos os sexos, interagem mais com garotos em sala de aula, o que pode desencorajar a proatividade entre as meninas.

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    Diferenças de Gênero

    NA ESCOLA

    • Estudos mostram que atitudes de pais e professores para com meninos e meninas pode reproduzir estereótipos de gênero e afetar motivação e resultados
    • Quase 40% das meninas brasileiras de 6 a 14 anos discordam que são tão inteligentes quanto os meninos, segundo a ONG britânica Plan International, que entrevistou 1.948 garotas

    NA UNIVERSIDADE

    • Um estudo da ONG Science Club for Girls diz que 29% dos alunos do sexo masculino se formam em matemática ou ciência, em comparação com 15% das mulheres
    • Alunas, em comparação a homens, tem 50% mais chance de desistir de cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática depois de fazer o primeiro semestre de cálculo, segundo estudo da revista "Plos One"

    NA VIDA PROFISSIONAL

    • Entre os 1.379 CEOs (diretores executivos) que responderam à pesquisa global da PwC, somente 102 (cerca de 7%) eram mulheres
    • Na América Latina, o salário das mulheres equivale a 84% do que recebe um homem no mesmo cargo

    Fontes: Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Cepal); Relatório Educação para Todos no Brasil (2000-2015); Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos (2000-2015); Cadastro Central de Empresas (Cempre); Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); PricewaterhouseCoopers (PwC - prestadora de auditorias e consultorias para empresas)

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