• Comida

    Thursday, 06-Aug-2020 03:53:32 -03

    Sanduíche Bauru foi criado em SP, na década de 20; veja receita

    ANA PAULA BONI
    da Revista da Folha

    10/11/2009 08h01

    Tiras finas de rosbife frio, rodelas de pepino pequeno em conserva, fatias de tomate e pão francês sem miolo, em cuja cavidade vai uma mistura de três queijos preparados dentro de água quente. Sanduíche novo nas padarias? Não, essa é a receita do bauru original, criado em 1922 em São Paulo.

    Divulgação
    Criada em 1922, em São Paulo, a receira do bauru original (foto) é feita com rosbife, pepino, tomate, pão francês sem miolo e queijos
    Criada em 1922, em São Paulo, a receita do bauru original (foto) é feita com rosbife, pepino, tomate, pão francês sem miolo e queijos

    A suculenta combinação saiu da cabeça do radialista Casemiro Pinto Neto, que frequentava o Ponto Chic, no largo do Paissandu, na saída das aulas no largo São Francisco. Os ingredientes, inclusive o creme de três queijos, já existiam naquele que era ponto de encontro de políticos à época. Casemiro apenas montava o sanduíche.

    A receita, tão pedida pelo radialista, caiu no gosto dos fregueses: "Me vê o sanduíche do Bauru", diziam os famintos, chamando o estudante de direito por seu apelido, adquirido por ter nascido na cidade do interior paulista.

    Não demorou para a fama do bauru, o sanduíche, se espalhar pela cidade. O dono do local, Odílio Ceccini, era diretor de futebol do Palestra Itália. Todos os dias carregava técnicos e jogadores para comer lá. "Atrás dos jogadores, iam os jornalistas. E atrás deles, iam os políticos fazer campanha. Jânio Quadros, Adhemar de Barros", conta o atual dono da rede de três lojas, o engenheiro José Carlos Alves de Souza, 60.

    Na década de 1930, a receita entrou no cardápio. Anos mais tarde, Casemiro, que morreu em 1983, escreveu sobre a criação que o tornou famoso. Ele conta que queria um sanduíche só com os queijos, mas decidiu incrementá-lo: "Falta um pouco de albumina e proteína. Bota umas fatias de rosbife. Falta vitamina, bota aí umas fatias de tomate." O pepino entrou depois, a pedido dos clientes, na década de 1970.

    Complexidade saborosa

    Ao longo dos anos, o sanduíche ganhou uma corruptela, que hoje faz fama em padarias e lanchonetes de qualquer canto do país, montada com ordinários queijo prato, presunto e tomate.

    Uma das razões da simplificação da receita pode ser atribuída à complexidade do preparo do rosbife e ao segredo em torno da mistura de queijos, diz José Carlos, filho único de Antônio Alves de Souza, 77, que foi funcionário de Ceccini e assumiu o Ponto Chic em 1980.

    Até chegar ao prato, o rosbife percorre um longo caminho. Primeiro, a peça de lagarto, com pouco menos de 2 kg, deve ser posta em um braseiro com carvão por três horas em alta temperatura. Após 20 minutos esfriando, com o sangue escorrendo, é ensacada e dorme dois dias na geladeira. Só então adquire a consistência quase de congelada, perfeita para ser fatiada em tiras bem finas.

    Esse ritual é seguido com as três toneladas de lagarto compradas por mês para as três lojas. É carne suficiente para 24 mil sanduíches --uma média de 250 vendidos por dia em uma só loja.

    Entre os clientes famosos do lanche, que custa R$ 14,40, está o apresentador Jô Soares, que sempre pede o seu para viagem, conta José Carlos.

    A mistura dos três queijos hoje não é mais segredo --são partes iguais de prato, gouda e estepe. Este último se reveza com o queijo suíço. Os três escolhidos vão numa assadeira com água e manteiga, em cima da chapa quente.

    A água ajuda a soltar a gordura da montanha de laticínio --duas toneladas por mês. Mesmo assim, o robusto sanduíche --onde vão 100 g de queijo-- mantém suas gordas 870 calorias. É uma verdadeira refeição, preparada por gente como José Ailton Gabriel Pinheiro, 45, há 20 anos como chapeiro. Para abrigar os ingredientes, o pão francês é um pouco maior que o tradicional. "Encomendamos de uma mesma padaria há anos. Eles fazem para a gente um pão mais redondo, mais gordinho."

    No Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), segue em andamento um pedido para registrar o bauru como bem imaterial. Para os seus fiéis apreciadores, o sanduíche criado há 87 anos já é.

    Para conferir

    Loja Paraíso - pça. Oswaldo Cruz, 26, Paraíso, região sul, São Paulo, SP. Tel.: 0/xx/11/3289-1480. Seg. a dom.: 11h30 às 3h ou até o último cliente.

    Informe-se sobre o local

    *

    Bauru

    Preparo: médio
    Rendimento: 1 porção

    Ingredientes

    :: 70 g de rosbife
    :: 100 g de queijo (proporções iguais de prato, gouda e estepe ou suíço)
    :: 1 colher de sopa de manteiga
    :: 300 ml de água
    :: 3 rodelas de pepino em conserva
    :: 3 rodelas de tomate
    :: 1 pão francês

    Modo de preparo
    - Aqueça a água sem deixar ferver.
    - Acrescente a manteiga e os três queijos. Mexa até ficar homogêneo.
    - Corte o pão francês e tire o miolo da parte superior. Na parte inferior, ponha seis fatias de rosbife, depois três rodelas finas de tomate e três rodelas finas de pepino.
    - Na parte superior do pão, coloque o queijo e feche o sanduíche. O pão não é aquecido.

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2020