• Comida

    Sunday, 25-Oct-2020 11:20:59 -03

    Ativista culinário viaja pela Itália em projeto para preservar tradição do país

    RACHEL DONADIO
    DO "NEW YORK TIMES", EM MINORI (ITÁLIA)

    09/04/2014 03h01

    Daniele De Michele, um DJ e artista performático barbudo e ruidoso que se tornou um dos mais inventivos ativistas gastronômicos da Itália, está envolvido em uma jornada de um ano para explorar e documentar as tradições culinárias dos camponeses e da classe trabalhadora de seu país.

    De Michele, 40, está preocupado com a possibilidade de que algumas das tradições italianas sejam perdidas, por causa dos alimentos industrializados, dos regulamentos da União Europeia e da cultura exibicionista dos concursos culinários de televisão. E ele está viajando de cidade a cidade para obter receitas e conversar sobre a sabedoria tradicional.

    Gianni Cipriano/The New York Times
    Daniele De Michele (à direita) prova embutidos feitos por Antonio Polverino (à esquerda) em Minori, no sul da Itália
    Daniele De Michele (à direita) prova embutidos feitos por Antonio Polverino (à esquerda) em Minori

    Em uma recente tarde fria de março, ele chegou a Minori, uma aldeia de pescadores na costa amalfitana, e estava caminhando entre fileiras de salsichas caseiras de carne suína, algumas delas recobertas de pimenta, penduradas do teto de uma oficina baixa. "O que você coloca? Coloca as orelhas do porco?", ele perguntou a Antonio Polverino, o fabricante de salsichas.

    "Não, a orelha não", disse Polverino, 64, um pedreiro aposentado, de mão calejadas. "Só uso carne, carne moída. Coração e pulmões também. É uma salsicha para comer seca."

    São tradições como essas cuja perda preocupa De Michele. "Quero explorar a memória -como a identidade baseada na memória persiste, existe, se perde; registrar um retrato da culinária da classe trabalhadora italiana hoje."

    Programas de culinária como "Master Chef", que tem uma versão italiana, "fazem com que as pessoas percam sua consciência, sua identidade", ele diz. Em seguida aponta para a costa. "Aqui, uma pessoa se define pelo uso de óleo quente com alho e anchovas, e tem orgulho disso", afirma.

    As pesquisas de De Michele estão sendo financiadas em parte pela Artusi, uma associação gastronômica de Bolonha que leva o nome de Pellegrino Artusi, o autor de um dos primeiros manuais de culinária italianos, de 1891. O resultado final de suas viagens será um livro e um possível documentário.

    Como DJ Donpasta ou Food Sound System, ele já se apresentou em Nova York, Paris e Berlim, entre outros países.

    Em uma de suas performances, De Michele pronuncia para um teatro vazio um discurso feroz sobre a "cozinha como ato político".

    Seu mais recente livro, publicado no ano passado, é "La Parmigiana e la Rivoluzione" (berinjela à parmigiana e a revolução), uma espécie de diário que combina receitas e comentários sobre música, com passagens pelas regiões da Itália nas quais imigrantes estão transformando a cozinha.

    DONPASTA

    Aos 14 anos, De Michele começou a trabalhar como DJ amador, e continuou a fazê-lo ao se mudar para Roma para estudar economia.

    De Michele ganhou o apelido de Donpasta quando tocava em Montmartre, Paris. Depois das apresentações ele cozinhava massas para os funcionários, a maioria dos quais senegaleses; "Eu era o Don Corleone da pasta."

    "Para mim, tocar música e cozinhar ao mesmo é completamente normal", diz. "Comparo a berinjela à parmigiana a John Coltrane", como um prato com grande mistura de sabores e complexidades, melhorado por meio de infinita improvisação.

    De Michele percebeu que podia usar suas performances e a comida para estudar as mesmas questões que estava pesquisando em sua carreira de economista: como criar desenvolvimento sem industrialização e como preservar costumes seculares diante da globalização?

    Para De Michele o que o interessa não é a excelência culinária, mas a história cultural. "Primeiro havia a cozinha de minha avó. Eu não ligo para o sabor. Comer salame basta para me fazer feliz. O que me interessa é a sabedoria da classe trabalhadora."

    O ativismo de De Michele surge em meio a um movimento crescente de comida artesanal, na Itália, formado por pessoas frustradas com a regulamentação da União Europeia, que elas veem como sufocante para as tradições locais e que acusam de dificultar a sobrevivência dos pequenos produtores. É uma reclamação que ele ouviu de padeiros, pescadores e de uma mulher que faz ricota, na costa amalfitana.

    A tensão entre os artesãos e a cultura da comida industrial também é o tema de "Natural Resistance", filme de Jonathan Nossiter, norte-americano radicado em Roma cujo documentário "Mondovino", de 2004, atacava a indústria mundial do vinho.

    "Natural Resistance", exibido no Festival de Cinema de Berlim, acompanha quatro produtores de vinho natural na Itália e suas disputas com a burocracia do vinho no país, altamente politizada. Nossiter diz que admira a abordagem de De Michele. "Ele não se leva a sério demais", diz o documentarista. "Não subestime o poder do senso de humor, com relação ao ativismo político."

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2020