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    Jamie Oliver diz que brigadeiro é 'um horror'; confeiteiros entendem sua opinião

    ANA KREPP
    DE SÃO PAULO

    21/07/2014 16h12

    Em visita ao Brasil na semana passada, Jamie Oliver participou do programa "Saia Justa", do GNT –que foi ao ar no último dia 16–, e deu uma declaração que causou polêmica nas redes sociais. "Isso é um bando de porcaria", disse, após provar um brigadeiro e um quindim.

    A declaração foi dada à jornalista e apresentadora Barbara Gancia, colaboradora do TV Folha, que o levou a um bar no Rio para provar caldo de cana, açaí, quindim e brigadeiro. À exceção do açaí e do caldo de cana, Oliver considerou tudo "um horror".

    A fala gerou burburinho na internet, por onde se espalharam comentários como "faltam a esses gringos respeito pela cultura brasileira, pela tradição local" e "um chef que é realmente um chef não diria isso da cultura de um país". Apesar disso, confeiteiros –especialistas em brigadeiro, inclusive– ouvidos pela Folha dizem entender o chef inglês.

    Juliana Motter, dona da Maria Brigadeiro, precursora da onda de brigadeiros gourmet em São Paulo, compreendeu a opinião de Jamie Oliver: "Se a receita tiver achocolatado, granulado artificial e margarina, ele pode considerar, sim, uma porcaria. Não era um doce gourmet", disse.

    Para a especialista, faltou uma curadoria para oferecer ao chef inglês melhores versões do doce.

    "É importante que seja fresco, tenha sido feito no dia e use matéria-prima de qualidade –em vez de granulado, raspas de chocolate, por exemplo. Isso já aumenta em 50% a qualidade do doce."

    Segundo Thiago Bettin, professor de confeitaria do Centro Universitário Senac, o brigadeiro no Brasil está passando por uma leve modificação em sua receita, deixando de lado o achocolatado para incluir mais cacau, "que vai amenizar o doce e dar mais sabor de chocolate".

    Historicamente, o brasileiro usa muito açúcar em suas receitas, principalmente pela influência da doçaria portuguesa. "A gente foi colonizado por quem mais utilizou o açúcar. Além disso, o açúcar era poderosíssimo; para enriquecer uma sobremesa, se usava muito açúcar, pelo status mesmo."

    Bettin também concorda que Jamie Oliver "tem lá sua razão" por considerar o doce ruim. "É uma questão cultural. O fish and chips deles é uma porcaria aos nossos olhos, mas para os ingleses, não é."

    Diante do excesso de açúcar nos doces brasileiros, o confeiteiro francês Fabrice Le Nud, dono da Pâtisserie Douce France, preocupa-se em colocar menos açúcar nas receitas.

    "Historicamente, o açúcar foi agente de conservação do doce. Uma cocada na Bahia tem validade de quase a vida toda", brinca. Por isso, Le Nud também é capaz de entender o ponto de vista de Oliver. E emenda: "Um brigadeiro sem leite condensado, com xarope de glicose, por exemplo, ficaria melhor."

    POLÊMICA

    Depois da repercussão negativa, a apresentadora Barbara Gancia saiu em defesa de Oliver em sua página no Facebook. Disse que o vídeo foi editado e que ele só afirmou que tudo era uma "porcaria" depois de ter provado vários outros doces.

    "É preciso levar em conta que, antes de falar isso, eu tinha forçado o homem a comer uma bandeja inteira de doces feitos com leite condensado. Ele disse que gostou, sim, do brigadeiro."

    Disse ainda que a afirmação do chef ficou sem contexto e afirmou que Oliver é das poucas celebridades mais gentis pessoalmente que em frente às câmeras.

    "Não pode ser que eu acabe sujando a barra dele, cometendo com ele essa injustiça monumental", escreveu em seu perfil.

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