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    Dieta para crianças desafia os pais

    MARIANA VERSOLATO
    DE SÃO PAULO

    29/04/2012 07h00

    Ao descobrir que a filha havia consumido 800 calorias de queijos, baguetes e chocolates em uma atividade na escola sobre a França, a mãe não teve dúvidas: repreendeu-a e a deixou sem jantar.

    Em festas, quando a pequena queria biscoitos e bolo, a mãe começava a brigar com ela na frente de todos. E, às vezes, o jantar era um ovo cozido ou uma sopa light.

    É assim que Dara-Lynn Weiss descreveu na revista "Vogue" dos EUA deste mês os métodos que usou para a filha Bea, 7, emagrecer. A garota foi classificada como obesa pelo pediatra.

    Críticas e comentários ao texto da socialite choveram em blogs e jornais. Muitos acusaram Weiss de dar o pontapé inicial a um transtorno alimentar no futuro de Bea.

    O artigo levantou a discussão sobre como tratar a obesidade infantil, problema que tem crescido cada vez mais no mundo todo.

    No Brasil, a Pesquisa de Orçamento Familiar, realizada em 2008 e 2009 pelo IBGE, mostrou um salto no número de crianças de cinco a nove anos com excesso de peso ao longo de 34 anos.

    Em 2008, 34,8% dos meninos estavam acima do peso saudável. Em 1989, esse índice era de 15%, contra 10,9% em 1974. Entre as meninas e em outras faixas de idade, os dados são semelhantes.

    Segundo Zuleika Halpern, endocrinologista do departamento de obesidade infantil da Abeso (Associação Brasileira de Obesidade), isso ocorre porque as crianças se exercitam menos e comem mais de forma inadequada.

    Ela lembra que o peso e a altura da criança devem ser acompanhados. Se saírem muito fora da curva para a idade, é hora de procurar um especialista.

    POLICIAMENTO

    Outro ponto discutido a respeito do caso da americana Bea são os exageros dos pais na hora de mudar os hábitos alimentares dos filhos.

    E os especialistas concordam: punir o filho, como Weiss fez, só traz problemas.

    "Há pais que viram policiais do filho. A família tem de ter disciplina, não terrorismo", diz Halpern.

    Segundo Sophie Deram, pesquisadora e nutricionista dos ambulatórios de obesidade infantil e transtornos alimentares do Hospital das Clínicas da USP, um grande número de jovens que desenvolve esses transtornos tem histórico de obesidade infantil.

    "Isso acontece por fatores como dietas restritivas e vontade de fugir da obesidade, quando ela é vista como um peso na infância."

    Deram ensina crianças a aprender as sensações de fome e saciedade. "Já o papel dos pais é oferecer um ambiente bastante saudável."

    Segundo ela, só a estabilização do peso é um sucesso, já que a criança está crescendo. E o foco deve ser na saúde, e não na imagem.

    O importante é que haja cooperação da família. Afinal, os pais sempre são exemplo a ser seguido pelos filhos.

    Ou seja, não adianta o pai incentivar o filho a praticar esportes se ele mesmo passa o dia todo sentado no sofá.

    Isadora Brant/Folhapress
    Marcelle Thomaz, 10, e sua mae Márcia. A criança está fazendo dieta e acompanhamento com endocrinologista após ter engordado 10 kg em seis meses
    Marcelle Thomaz, 10, e sua mae Márcia. A criança está fazendo dieta e acompanhamento com endocrinologista após ter engordado 10 kg em seis meses

    SOFRIMENTO EM FAMÍLIA

    Márcia Thomaz, 31, mãe de Marcelle, 10, conta como lidou com o problema da filha. "De seis meses para cá a Marcelle engordou uns 10 kg. Acho que foi por causa das férias e da ansiedade para as provas, porque a alimentação em casa sempre foi saudável. Fiquei preocupada e vi que ela estava sofrendo. Tinha medo de que ela brigasse sempre com a balança", conta.

    A menina agora segue as recomendações de um endocrinologista e faz a reeducação alimentar com a dieta dos pontos. "(Ela) aprendeu a fazer escolhas melhores na escola. Pode comer de tudo, mas de forma equilibrada. Também está fazendo basquete e tênis e já perdeu 4 kg em um mês", diz a mãe.

    Leo Caldas/Folhapress
    Gabriel, 8, com sua mãe Danielle Santana Silva das Neves, 31, em um clube do Recife
    Gabriel, 8, com sua mãe Danielle, 31, em um clube do Recife

    A funcionária pública Danielle Santana Neves, 31, mãe de Gabriel, 8, também passou por situação semelhante. "Quando a médica disse que meu filho tinha obesidade, colesterol alto e gordura no fígado, chorei e senti culpa. Pensei: 'Como deixei chegar nesse ponto?'."

    Em 2011, Danielle eu estava com 116 kg. Como corria risco de morte, fez uma cirurgia bariátrica e desde então, perdeu 40 kg.

    "Agora o Gabriel quer seguir meu exemplo, está fazendo a reeducação alimentar, comendo melhor e praticando esportes. Já perdeu 3 kg. A família toda mudou. Até corremos uma prova juntos", disse a mãe.

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