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    Incidência de câncer colorretal aumenta entre os mais jovens

    GABRIEL ALVES
    DE SÃO PAULO

    17/03/2017 02h02

    Gabriel Cabral/Folhapress
    Ana Paula Monteiro, 39, que teve câncer colorretal e que já passou por diversas operações para tirar nódulos dos pulmões
    Ana Paula Monteiro, 39, que já passou por diversas operações para tirar nódulos dos pulmões

    A doença estava longe do radar. A dificuldade em ir ao banheiro e os intensos sangramentos demoraram para suscitar a hipótese de câncer colorretal. Em dezembro de 2013, a estilista Ana Paula Monteiro, 39, recebeu a notícia de que tinha a doença, já em estágio avançado.

    "E sou magra, ativa, sempre comi de maneira saudável, nunca tive caso na família... Nem eu nem os médicos desconfiávamos", diz Ana.

    A securitária Andréa Hagime Nakayama, 40, achou estranho quando, em abril de 2015, percebeu um aumento na frequência com que ia ao banheiro. "Em maio, queria ir o tempo todo. Em junho senti dores para sentar e depois houve sangramento –aí sabia que possivelmente seria um sintoma [do câncer]."

    Ana Paula e Andréa não estão na faixa etária mais afetada pela doença –a média no diagnóstico está entre 60 e 65 anos–, mas podem ser exemplos de uma nova tendência que mostra o aumento da incidência de câncer colorretal entre jovens, ao contrário do que acontece com quem tem mais de 50 anos.

    Um estudo feito nos EUA com dados de mais de 490 mil pessoas mostrou que os jovens de hoje têm um risco muito maior que os jovens do passado de ter a doença.

    A probabilidade, apesar de baixa –1 caso em cada 100 mil para quem tem entre 20 e 29 anos–, gera preocupação pelo fato de estar aumentando com o tempo, especialmente a partir da década de 1980, quando estava na casa de 0,5 para cada 100 mil.

    Já para quem tem entre 60 e 64 anos a chance de ter câncer colorretal é 50 vezes maior do que o dos jovens. A questão é que esse risco está diminuindo – na década de 1980, era o dobro disso. O trabalho saiu no "Journal of the National Cancer Institute".

    No Brasil não há dados tão precisos, mas um levantamento do A.C.Camargo Cancer Center mostra um panorama preocupante por aqui.

    De 1.167 pacientes diagnosticados entre 2008 e 2015 com câncer colorretal, 20% têm menos de 50 anos. O paciente mais jovem tinha 23.

    Talvez por isso a percepção de que jovens estão sendo mais vítimas da moléstia é compartilhada entre especialistas ouvidos pela Folha.

    "É uma tendência preocupante, ainda mais que está claro que os casos de câncer vêm caindo anualmente desde os anos 90", diz Samuel Aguiar Junior, diretor do departamento de tumores colorretais do A.C.Camargo.

    "Outro dia operei um jovem superesclarecido de 34 anos que teve como primeiro sintoma o sangramento. Quando que, no passado, a gente ia pensar que essa pessoa estaria com câncer? Ele foi tratado um bom tempo como se tivesse hemorroida, até fazer a colonoscopia e ter o diagnóstico correto", diz o gastrocirurgião Marcos Belotto, que também tratou Andréa.

    CAUSAS

    As explicações para o aumento da incidência entre jovens, porém, dividem os profissionais de saúde.

    Para a nutricionista Maria Eduarda Melo, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o grande vilão é o consumo de comida ultraprocessada (como bacon e linguiças), além da epidemia de obesidade.

    Já Sérgio Araujo, cirurgião do hospital Albert Einstein afirma que os principais fatores de risco, além de idade avançada, são presença de pólipos no intestino, histórico familiar positivo, cânceres prévios e tabagismo.

    Além de atentar para os sintomas, não fumar e buscar um baixo peso, o que se pode fazer para tentar evitar o câncer é detectar os tais pólipos por exames como a colonoscopia. Pólipos são estruturas pré-cancerosas que se formam a partir de alterações de um grupo de células na parede intestinal e não geram sintomas. Por isso, para Aguiar-Junior, o ideal é não esperá-los.

    Em média, os pólipos levam dez anos para se tornarem tumores malignos, diz Claus-Henning Köhne, ex-presidente da Sociedade Europeia de Oncologia e especialista em câncer colorretal.

    Em jovens, a coisa é mais complicada. Nessa faixa etária esse estágio de pólipo muitas vezes é "pulado"e vai direto para o de câncer. Mesmo que essas estruturas estejam lá, o exame para identificá-las costuma ser indicado só para quem tem mais de 50 anos.

    "Meu pai teve câncer de estômago e sempre fiquei atenta a essa parte. Eu nunca tinha feito colonoscopia, até essa primeira, que identificou o câncer", diz Andréa.

    Não seria economicamente vantajoso oferecê-lo para todos –muito dinheiro gasto para encontrar poucos casos.

    Exames menos específicos como a busca por sangue oculto nas fezes também podem ajudar na detecção.

    Já na fase de tratamento –geralmente uma combinação de radioterapia, imunoterapia e cirurgia–, os desafios são iguais para todas as idades e vão desde acesso às melhores terapias até mesmo o conhecimento dos médicos.

    Köhne diz que há oncologistas que desconhecem as possibilidades de tratamento e que muitos não se atualizam. Identificar marcadores tumorais que indicam quais drogas têm mais chance de sucesso no combate à doença poderia ajudar na tarefa.

    COLECTOMIA

    O tratamento do câncer colorretal geralmente, sempre que possível, envolve a remoção de parte ou de todo o reto e/ou do intestino grosso. No caso de Ana Paula, a melhor opção foi fazer o que os médicos chamam de colectomia total.

    Ana Paula está se recuperando de uma terceira cirurgia que fez para a retirada de nódulos nos pulmões decorrentes da metástase, e diz sentir-se bem após completar mais uma série de sessões de quimioterapia.

    "As pessoas têm de ficar atentas. Sangramento nunca é normal. Se há algo diferente, seja o que for –bola, caroço– procure um médico", aconselha a estilista.

    A aposta dela é que o estilo de vida pode ajudar não só na prevenção mas também no melhor prognóstico, algo que pode ser especialmente valioso para os mais jovens.

    "Quando eu queria entender o que estava causando o sangramento, procurava na internet. Várias vezes eu lia 'câncer' e ignorava. Não cogitava que podia acontecer comigo. Hoje a maioria das pessoas com câncer que conheço têm a minha idade."

    FISIOTERAPIA

    Andréa, após o tumor do reto ter sido encontrado, não queria tirar todo o intestino. Passou por oito médicos até encontrar um que considerasse a possibilidade de fazer a ressecção parcial.

    "Tinha que abrir para saber se era possível", conta. E foi.

    Depois da primeira cirurgia ela teve de fazer outra, para a reconstrução do trato gastrintestinal. Mas teve de fazer fisioterapia para recuperar a capacidade de segurar as fezes –por causa da remoção de parte do esfíncter anal junto com o tumor.

    "Não pude comer nada de verduras por um bom tempo, mas hoje estou bem melhor", conta.

    "O pior do câncer, de tudo o que eu aprendi, também convivendo com outros pacientes, é que a quimioterapia judia muito da gente. Esse momento é o mais perigoso, o corpo pode pegar uma infecção e não ter como reagir", diz Andréa.

    Atualmente ela faz exames de controle (como tomografia e ressonância) a cada três meses. O intervalo tende a aumentar para seis meses e depois para um ano se não houver problemas.

    "Continuo na fisioterapia e também faço acupuntura, que ajudou muito a normalizar o funcionamento do intestino."

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    COMO COMEÇA

    ENTENDA A DOENÇA

    Saiba mais sobre o câncer colorretal

    O QUE É
    Câncer do cólon ou do reto, localizado na extremidade inferior do trato digestivo

    COMO COMEÇA
    Muitas vezes o câncer se inicia com o surgimento de pólipos, grupos de células que formam um pequeno aglomerado que, com o tempo, podem virar um câncer

    SINTOMAS
    Muitas vezes os pacientes têm o câncer sem sintomas, daí a importância do rastreamento, principalmente em pacientes mais velhos. Quando surgem, estão entre eles:

    SINTOMAS

    1 - Sangramento pelo reto
    2 - Alteração do funcionamento normal do intestino
    3 - Dor abdominal
    4 - Obstrução intestinal
    5 - Mudanças no apetite
    6 - Perda de peso
    7 - Fraqueza

    DIAGNÓSTICO
    > A busca por sangue oculto nas fezes é uma maneira mais barata (mas não tão precisa) de detectar o câncer colorretal
    > A colonoscopia (exame de imagem do intestino) é recomendada para pacientes a partir dos 50 anos

    IDADE
    A média de idade no diagnóstico é de 60 anos, mas os mais jovens estão sofrendo mais com a doença nos EUA. A média de idade é de 60 anos

    FATORES DE RISCO E PROTEÇÃO

    Obesidade: 33% maior incidência

    Uso de cigarro: até 51% maior incidência

    Um caso na família: até 157% maior incidência

    Doença de Crohn (tipo de inflamação intestinal crônica): 200% maior incidência

    Câncer de ovário: 190% maior incidência

    Uso pesado de álcool: 52% maior incidência

    Atividade física regular: 25% menos incidência e 26% menos mortalidade

    Uso de aspirina: 29% menos mortalidade (pode ser maior dependendo do tipo do tumor)

    NÚMEROS

    20% é a quantidade de pacientes com menos de 50 anos diagnosticados no A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo

    Entre 30% e 65% dos pacientes sobrevivem 5 anos após o diagnóstico, em média, dependendo do país

    5% das pessoas vão desenvolver câncer colorretal ao longo da vida

    NO BRASIL
    32,2 mil casos anuais
    15,4 mil mortes

    Evolução da mortalidade no Brasil - A cada 100 mil, por período

    TRATAMENTOS
    > Cirurgia para remoção do tumor –se realizada, prognóstico é bastante superior
    > Quimioterapia e radioterapia para matar células cancerosas e também reduzir tamanho do tumor, controlando-o e muitas vezes tornando-o operável
    > Em caso de metástases, cirurgia para remoção de nódulos em órgãos como pulmão e fígado

    Fontes: Inca, A.C.Camargo, Cancer.gov, Oncoguia, Claus-Henning Köhne

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